Você já ouviu a expressão popular “vaso ruim não quebra”? Ela é usada para se referir a pessoas que, apesar de terem um comportamento reprovável, parecem escapar das consequências de seus atos. Mas o que essa frase significa literalmente e figuradamente? E o que ela tem a ver com a semiótica, a ciência que estuda os signos e os sistemas de significação?

A semiótica nos ensina que os signos são elementos que representam algo para alguém em algum contexto. Os signos podem ser verbais (palavras, frases, textos) ou não verbais (imagens, gestos, sons, objetos). Os signos têm um significado (o conceito que eles evocam) e um significante (a forma material que eles assumem). Por exemplo, a palavra “cachorro” é um signo verbal que tem como significado o conceito de um animal doméstico de quatro patas e como significante o conjunto de sons ou letras que a compõem.

Mas os signos não são fixos nem universais. Eles podem variar de acordo com o contexto, a cultura, a época e a intenção de quem os usa. Por isso, a semiótica também nos ajuda a entender que os signos são relativos e podem ter diferentes interpretações. O mesmo signo pode ter sentidos diferentes para diferentes pessoas ou grupos sociais.

Isso nos leva à questão da relatividade moral dos conceitos de certo e errado. O que é certo para uns pode ser errado para outros, e vice-versa. O que é certo em uma situação pode ser errado em outra, e vice-versa. O que é certo em uma época pode ser errado em outra, e vice-versa. Essa relatividade moral pode gerar conflitos, confusões e dilemas éticos.

Como cristãos, como devemos lidar com essa relatividade moral? Podemos aceitar qualquer coisa como certa ou errada, dependendo do ponto de vista?Podemos nos basear apenas na nossa opinião pessoal ou na opinião da maioria?Podemos nos adaptar aos costumes e valores do mundo?

A resposta bíblica é não. A Bíblia nos revela que existe um padrão absoluto de certo e errado, que é a vontade de Deus. 

Deus é o Criador de todas as coisas e o Senhor de toda a história. Ele é santo, justo e bom. Ele sabe o que é melhor para nós e para o seu propósito eterno. Ele nos deu a sua lei e os seus mandamentos para nos orientar e nos proteger. Ele nos enviou o seu Filho Jesus Cristo para nos salvar e nos ensinar. Ele nos concedeu o seu Espírito Santo para nos guiar e nos consolar.

A Bíblia também nos alerta sobre as consequências de desobedecer a Deus e seguir os nossos próprios caminhos. 

Em Deuteronômio 30:15, Deus diz ao seu povo: “Vejam que hoje ponho diante de vocês vida e prosperidade, ou morte e destruição”. Em Isaías 5:20, Deus denuncia os que chamam o mal de bem e o bem de mal, que trocam as trevas pela luz e a luz pelas trevas, que trocam o amargo pelo doce e o doce pelo amargo. Em Isaías 30:21, Deus promete aos que se arrependem: “Quer você se volte para a direita quer para a esquerda, uma voz atrás de você lhe dirá: ‘Este é o caminho; siga-o'”. Em Provérbios 3:5, Deus nos aconselha: “Confie no Senhor de todo o seu coração e não se apóie em seu próprio entendimento”. Em Hebreus 9:27, Deus nos lembra: “Da mesma forma, como o homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo”.

Portanto, não podemos nos deixar enganar pela relatividade moral dos conceitos de certo e errado. Não podemos nos conformar com o padrão do mundo. Não podemos nos fiar na nossa própria sabedoria. Precisamos buscar a verdade de Deus revelada na sua Palavra. Precisamos obedecer à sua vontade expressa na sua lei. Precisamos seguir o seu exemplo manifestado em seu Filho. Precisamos depender da sua graça derramada pelo seu Espírito. Só assim poderemos ser vasos de honra nas mãos do oleiro, e não vasos ruins que se quebram.

Para ilustrar a questão da relatividade moral, vamos aplicar ao caso concreto da poligamia, no contexto bíblico, e do poliamor no contexto atual. A poligamia é a prática de ter mais de uma esposa ou marido dentro de um casamento. O poliamor é a prática de ter mais de um relacionamento amoroso simultâneo, com o consentimento de todos os envolvidos.

A poligamia era comum nos tempos do Antigo Testamento, inclusive por homens tementes a Deus, como Abraão, Jacó, Davi e Salomão. No entanto, a Bíblia não apresenta a poligamia como um ideal, mas como uma concessão de Deus diante das circunstâncias da época. 

A poligamia era praticada por motivos políticos, econômicos, sociais e culturais, mas também trazia muitos problemas familiares, como rivalidades, ciúmes, disputas e infidelidades. A Bíblia mostra que o plano original de Deus para o casamento era a monogamia, ou seja, a união entre um homem e uma mulher (Gênesis 2:24; Mateus 19:4-6). No Novo Testamento, a poligamia é rejeitada como um requisito para os líderes da igreja (1 Timóteo 3:2; Tito 1:6).

O poliamor é uma tendência moderna que desafia os conceitos tradicionais de casamento e família. Os adeptos do poliamor defendem que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, sem exclusividade nem possessividade. Eles afirmam que o poliamor é baseado na honestidade, no respeito, na liberdade e na responsabilidade. Eles criticam a monogamia como uma imposição social que limita o amor e gera infelicidade. Eles reivindicam o direito de escolher o tipo de relacionamento que lhes convém.

No entanto, o poliamor também não está de acordo com a vontade de Deus para os seus filhos. O poliamor contraria o princípio bíblico da fidelidade conjugal, que é um reflexo do amor exclusivo e incondicional de Deus por seu povo (Oséias 2:19-20; Efésios 5:25-27). O poliamor também desvaloriza o compromisso e o sacrifício que são essenciais para um casamento duradouro e feliz (Eclesiastes 4:9-12; Colossenses 3:18-19). O poliamor ainda pode causar danos emocionais, psicológicos e espirituais aos envolvidos e aos seus filhos, que ficam expostos à instabilidade e à confusão (Provérbios 5:3-14; 1 Coríntios 6:18-20).

Portanto, tanto a poligamia quanto o poliamor são exemplos de como a relatividade moral pode afastar as pessoas do propósito de Deus para suas vidas. 

Deus nos criou para vivermos em relacionamentos saudáveis, baseados no amor verdadeiro, na fidelidade, no respeito e na comunhão. Ele nos chamou para sermos santos como ele é santo, e para honrarmos o seu nome em tudo o que fazemos. Ele prometeu nos abençoar quando seguimos os seus mandamentos e nos advertiu sobre as consequências desastrosas quando os desprezamos. Ele nos ofereceu a sua graça para nos perdoar quando erramos e nos capacitar para vivermos segundo a sua vontade, santificando-nos.

Para saber mais sobre a semiótica e a relatividade moral, consulte as seguintes fontes e referências de pesquisa:

  • Eco, Umberto. Tratado geral de semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2003.
  • Peirce, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 2005.
  • Saussure, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006.
  • Barthes, Roland. Elementos de semiologia. São Paulo: Cultrix, 2007.
  • Grice, Paul. Lógica e conversação. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.
  • MacIntyre, Alasdair. Depois da virtude. São Paulo: Loyola, 2010.
  • Lewis, C.S. A abolição do homem. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
  • Piper, John. A supremacia de Deus na pregação. São Paulo: Shedd Publicações, 2014.
  • Keller, Timothy. A fé na era do ceticismo. São Paulo: Vida Nova, 2018.
  • Stott, John. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida Nova, 2019.
  • https://estiloadoracao.com/o-que-e-poligamia-na-biblia/
  • https://www.respostas.com.br/por-que-deus-permitiu-a-poligamia/
  • https://noticias.gospelmais.com.br/poligamia-justica-reconhece-uniao-poliafetiva-homem-mulheres-164277.html
  • https://www.respondi.com.br/2017/07/havia-poligamia-no-inicio-da-igreja.html
Por: Adauto Santos, teóogo e professor.