O presente trabalho visa abordar o tema da parábola da Videira Verdadeira e sua hermenêutica, realizando um diálogo entre a Comunidade Joanina e suas inclusões sociais como também a exegese do texto especificamente em João 15.2 e sua tradução. Fazendo assim uma quebra de paradigmas quanto a tradução e interpretação dessa perícope. Em João 15.1-17 diz:

Eu sou a verdadeira videira e meu Pai é o agricultor. Todo ramo em mim que não produz fruto ele o corta, e todo o que produz fruto ele o poda, para que produza mais fruto ainda. Vós já estais puros, por causa da palavra que vos fiz ouvir.  Permanecei em mim, como eu em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanece na videira, assim também vós, se não permanecerdes em mim.  Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto; porque, sem mim, nada podeis fazer. Se alguém não permanece em mim é lançado fora, como o ramo, e seca; tais ramos são recolhidos, lançados ao fogo e se queimam. Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vós o tereis. Meu Pai é glorificado quando produzis muito fruto e vos tornais meus discípulos. Assim como o Pai me amou também eu vos amei. Permanecei em meu amor. Se observais meus mandamentos, permanecereis no meu amor, como eu guardei os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Eu vos digo isso para que a minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena. Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Vós sois meus amigos, se praticais o que vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que seu senhor faz; mas eu vos chamo amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu vos dei a conhecer. Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e produzirdes fruto e para que o vosso fruto permaneça, a fim de que tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome ele vos dê. Isto vos mando: amai-vos uns aos outros.

Era costume de Jesus trabalhar com imagens e ideias que faziam parte da tradição religiosa do povo judeu. No Antigo Testamento temos referência comparando Israel como a vinha ou a videira de Deus. Os profetas Isaías, Jeremias, Ezequiel e Oséias fazem essas referências como também o salmista cantou “Trouxeste uma videira do Egito” pensando na libertação de seu povo. Tanto era assim que nas moedas dos Macabeus tinha um emblema como símbolo, uma vinha.  Como informa Barclay: 

Uma das glórias do templo era a grande vinha de ouro na fronte do Santíssimo. Muitos homens importantes se haviam sentido honrados de contribuir com algo de ouro para modelar um novo cacho nessa vinha ou até uma uva nova. A vinha formava parte do imaginário judaico; era o próprio símbolo do povo de Israel. 

No Novo Testamento temos Jesus se referindo a si mesmo como real e genuína videira. Jesus ao dizer que é a videira verdadeira, estabelece o caminho para a salvação. Isso significa que não é pelo fato de ser judeu que teriam salvação, mas sim, com uma comunhão íntima e a vivência com Ele é que poderão ser salvos e consequentemente serem os ramos dessa videira. 

As vinhas faziam parte no cotidiano na Palestina e sua cultura era muito praticada. É uma planta que para o seu cultivo necessita de muitos cuidados, o solo precisa ser cuidadosamente limpo e tratado. É uma planta que cresce com muita rapidez e sempre é necessário trabalhar com a poda. Por ser uma planta de desenvolvimento rápido, todo ano se trabalha com a poda e é claro que aqueles ramos que dão frutos permanecem e os que não são frutíferos são podados. Através desse conhecimento judeu com o plantio, demonstra que não foi à toa que Jesus utilizou desse exemplo para dizer e se comparar com a videira.

A cada poda, todos os ramos que não dão frutos são eliminados para que não prejudique a videira como um todo. Isso era sabido pelos judeus como para Jesus o era, pois como judeu, ele agia como judeu. O curioso era que os ramos podados não serviam para virar boa lenha para fogo, por isso não servia como madeira para os holocaustos no Templo. Ficando esses ramos servindo somente para descarte que era uma fogueira própria para consumir esses ramos inúteis. Assim relata Barclay, 

Jesus o sabia e isso agrega algo à imagem que desenvolve. Jesus diz que seus seguidores são iguais a estes ramos. Alguns são ramos formosos que produzem fruto, como Ele. Outros são inúteis porque não produzem fruto. Em quem pensava Jesus ao falar dos ramos que não dão fruto? Podemos dar duas respostas. Em primeiro lugar, pensava nos judeus. Eram ramos da videira de Deus. Acaso não era essa a imagem que tinham pintado os profetas, um após outro? Entretanto, negaram-se a ouvi-lo: negaram-se a aceitá-lo e por isso eram ramos podres e inúteis. Em segundo lugar, pensava em algo mais geral. Pensava naqueles cristãos cujo cristianismo consiste em profissão sem prática, em palavras sem atos. Pensava em cristãos que são ramos inúteis, só folhas sem frutos. E pensava naqueles cristãos que se converteram em apóstatas, que ouviram a mensagem, aceitaram-na e caíram a um flanco do caminho, que abandonaram a fé e traíram ao Mestre que uma vez tinham prometido servir.

A hermenêutica tradicional escolhida dessa parábola foi dos comentários bíblicos do evangelho de João por Barclay e que não se percebe diferenças importantes de interpretação com demais fontes. Barclay, interpreta que podemos ser ramos inúteis dessa videira de várias formas. Uns podem negar por completo a ouvir Jesus, outros podem ouvir a Cristo e seguir sem ações concretas e sem demonstrar devoção nos atos e também podemos ter aqueles que o aceitam como mestre, mas sempre anseiam por realizar as próprias vontades e o abandonam. Essa inutilidade convida ao desastre e o ramo sem fruto se dirige para a destruição.

Nessa parábola se fala muito em permanecer em Cristo. Há um sentido em que diz que o cristão está em Cristo e Cristo está no cristão e é claro que muitos não vivem essa experiência. Permanecer em Cristo significa segundo Barclay estar sempre em diálogo com Jesus, é manter contato com Ele, é estar na presença Dele. Não se deve passar nenhum dia sem pensar em Jesus e sem sentir sua presença. Não se pode sair da presença de Cristo e fazer coisas más. Permanecer em Cristo seria uma experiência mística que não se pode expressar com palavras. Para concluir, Barclay destaca que nesse entendimento se estabelecem duas coisas sobre o bom discípulo. 

Em primeiro lugar, enriquece sua própria vida. Seu contato o converte em um ramo cheio de frutos. Em segundo lugar, dá glória a Deus. Ao contemplar sua vida, os pensamentos dos homens se voltam para Deus que o fez assim”. Ao glorificar a Deus, como Jesus ensinou, ao produzir muitos frutos e quando demonstrar ser discípulos de Jesus. Sem dúvida, a maior glória da vida cristã é que, por meio de nossa vida e de nossa conduta, podemos dar glória a Deus.

O objetivo desse ensaio não é discordar dessa tradição. Mas, dar uma mudança no paradigma sobre as condições de ser um ramo inútil. Para se chegar a esse extremo de ser jogado no fogo para a extinção, é necessário estar fora da videira. Pois ser um ramo fixado na videira verdadeira que é Jesus Cristo, seria quase impossível não dar frutos. Mas se essa improdutividade vier a acontecer, alguns passos são realizados pelo agricultor, que é o mestre Jesus. Baseando na tradução, juntamente com a exegese do texto no evangelho de João capítulo 15 versículo 2 podemos chegar ao seguinte estudo.

 Segue quadro com algumas traduções bíblicas:

Bible Works
Bíblia de Jerusalém
Biblia Apologética de Estudos
Bíblia TEB
πᾶν κλῆμα ἐν ἐμοὶ μὴ φέρον καρπὸν αἴρει αὐτό, καὶ πᾶν τὸ καρπὸν φέρον καθαίρει αὐτὸ ἵνα καρπὸν πλείονα φέρῃ.
Todo ramo em mim que não produz fruto ele o corta, e todo o que produz fruto ele o poda, para que produza mais fruto ainda.
2Toda a vara em mim, que não dá fruto, a tira; e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto.
2 Todo sarmento que, em mim, não produz fruto, ele o arranca, e todo sarmento que produz fruto, ele o poda, o purifica a fim de que produza mais.

A palavra em questão a qual faremos a análise é ( αἴρει ) e será usado algumas traduções e seus respectivos dicionários a seguir para dar continuidade ao estudo:

αἴρειlevantar, oferecer, recrutar, engrandecer, Içar, suscitar.

αἴρει1) levantar, elevar, erguer – 1a) levantar do chão, pegar: pedras – 1b) erguer, elevar, levantar: a mão – 1c) içar: um peixe – 2) tomar sobre si e carregar o que foi levantado, levar – 3) levar embora o que foi levantado, levar – 3a) mover de seu lugar – 3b) cortar ou afastar o que está ligado a algo – 3c) remover – 3d) levar, entusiasmar-se, ficar exaltado – 3e) apropriar-se do que é tomado – 3f) afastar de alguém o que é dele ou que está confiado a ele, levar pela força – 3g) levar e utilizar para alguma finalidade – 3h) tirar de entre os vivos, seja pela morte natural ou pela violência – 3i) motivo para parar.

αἴρειAlçar, levantar, elevar, louvar, acrescentar, exagerar, excitar, carregar, levar embora, arrastar embora, eliminar, matar

αἴρειLevanto; carrego, levo; tiro, removo.

αἴρειLevantar, remover.

αἴρειLevantar, carregar; manter em suspense, deixar na dúvida; tirar, remover, cortar fora.

Analisando as traduções, a única que nos leva a pensar em “tirar”, “remover” ou “cortar fora” é do léxico de Gingrich e Danker que nos induz a interpretação de remoção em João 15.2. Agora, essa indução já seria influência da tradição?

O vocábulo em questão é um verbo que está no presente do indicativo, na voz ativa e na terceira pessoa do singular. Mostra que realmente seria uma ação a qual Ele “O Senhor da Videira” agiria quanto ao ramo que não está dando frutos. Mas, as ações que seriam utilizadas pelo agricultor segundo as traduções, deveriam ser: levantar, oferecer, recrutar, engrandecer, içar, suscitar. 

Essas são as primeiras opções dos dicionários e assim deveria ser feito. Então na tradução da Bíblia de Jerusalém a perícope ficaria: Jo 15.2 “Todo ramo em mim que não produz fruto ele o levanta, oferece, recruta, engrandece, iça, suscita, e todo o que produz fruto ele o poda, para que produza mais fruto ainda”. Pensando como um agricultor, esse galho que não está produzindo seria levantado, içado, oferecido ao sol para que passe a produzir. Tornando assim essa perícope ou parábola mais inclusiva e seria menos utilizada pela tradição e igrejas como ameaça de exclusão.

Como continua a parábola no versículo 5 parte b, Jesus diz que “Aquele que permanece em mim e eu nele produz muito fruto”. Assim, somente aquele que não permanecer no mestre é que é lançado fora. 

Dessa forma, com esse entendimento, todos aqueles que permanecerem como ramo na videira verdadeira não teria como ser abandonado pelo agricultor. Para que isso aconteça é preciso abandona-Lo. Há nessa parábola um sentido de exclusão, mas antes que isso aconteça, o agricultor não o excluirá tão facilmente. Como bom agricultor, ele tratará, irá investir nesse ramo, elevando-o, içando ao sol, fazendo com que a parábola da videira verdadeira seja mais inclusiva ao invés de exclusão.

REFERÊNCIAS

  • Bíblia Apologética de Estudos – Traduzida por João Ferreira de Almeida. Jundiaí:  Instituto Cristão de Pesquisas, 2005
  • Bíblia de Jerusalém. Nova Edição, revista e ampliada. 3ª impressão. São Paulo: Paulus, 2004.
  • Bíblia TEB. Tradução ecumênica. São Paulo: Loyola, 1998.
  • Bible Works 8 – www.bibleworks.com
  • BARCLAY, William. Comentário do Novo Testamento – Evangelho de João. 
  • BORTOLINI, José. Como ler o Evangelho de João. São Paulo: Paulus, 2015.
  • BROWN, Raymond E. A Comunidade do Discípulo Amado. São Paulo: Paulinas, 1983.
  • GINGRICH, Wilbur; DANKER, Frederick W. Léxico do Novo Testamento. Grego-Português. Edições Vida Nova, 2005.
  • ISIDRO PEREIRA, S. J. Dicionário Grego/Português – Português/Grego, 6ª Ed. Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1984.
  • MINCATO, Ramiro. Escatologia no Quarto Evangelho. O Reino já chegou. Estudos Bíblicos 93. Petrópolis: Vozes, 2007.
  • PASSARELLA, João B. Justiça Social na Bíblia: O Deus que se revela aos pobres. Curitiba, Appris, 2014.
  • REGA, Lourenço S.; BERGMANN, J. Noções do grego bíblico – Gramática fundamental. Vida Nova, São Paulo, 2004.
  • RIENECKER, Fritz; ROGERS, Cleon. Chave linguística do Novo testamento. Vida Nova, São Paulo, 2009.
  • RUSCONI, Carlo. Dicionário do Grego do Novo Testamento. 6ª Ed. Paulus, São Paulo, 2015.
  • STRONG. Dicionário bíblico Strong – Léxico Hebraico, Aramaico e Grego. SBB, Barueri, 2002.

 Por: Me João Batista de Oliveira Passarella, téológo, mestre em teologia e professor

1 Comentário

  1. Bem esclarecedor e libertador. Vem de encontro a interpretações erradas que causam separação e tristeza em muitos.

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