Olá, queridos leitores!

Hoje eu quero falar com vocês sobre um assunto que me interessa muito e que acho que deveria interessar a todos: a política, no bom sentido, claro. Sim, eu sei que muitos de vocês podem torcer o nariz, se entediar ou se irritar com esse tema.

Afinal, a politicagem compromete o verdadeiro significado da política, tornando-a algo distante, complicado e corrompido. Algo que não nos representa, que não nos beneficia e que não podemos mudar. Mas eu quero desafiar essa visão e mostrar que a verdadeira política é algo que nos afeta diretamente, que podemos compreender e que podemos transformar. E mais do que isso, eu quero mostrar que a política é algo que podemos fazer de forma diferente, de forma livre e anárquica, em termos bíblicos.

O que eu quero dizer com isso? Eu quero dizer que nós não precisamos aceitar a política como ela é hoje, baseada na dominação, na representação e na burocracia. Nós não precisamos nos submeter a políticos profissionais, partidos hierárquicos e instituições autoritárias. Nós não precisamos delegar nosso poder, nossa voz e nossa participação a uma minoria privilegiada e alienada.

Em uma utopia anárquica, não há governo, nem leis, nem polícia. Todos são livres para viver como quiserem, sem medo de punição. Não há classes sociais, nem ricos nem pobres. Todos têm os mesmos direitos e oportunidades.

Essa utopia é descrita em várias passagens da Bíblia, como as que descrevem a igreja primitiva em Atos dos Apóstolos. Em Apocalipse 21:4, o apóstolo João diz que no Reino de Deus “não haverá mais lágrimas, nem dor, nem morte”. Em Apocalipse 22:3-5, ele diz que “não haverá mais maldição, nem noite”. Em Apocalipse 21:22-23, ele diz que “não haverá mais templo, nem sol” e “o mar já não existe”. Essas passagens sugerem que o Reino de Deus é um lugar onde não há sofrimento, maldade ou desigualdade. É um lugar onde todos são livres para viver em paz e harmonia.

Em Gálatas 3:28, o apóstolo Paulo afirma que “não há mais distinção entre judeus e gentios, escravos e livres, homens e mulheres”. Isso significa que, no Reino de Deus, todos são iguais, independentemente de sua raça, religião, status social ou gênero.

Em 1 Coríntios 7:22, Paulo diz que “a mulher não tem senhor sobre o seu próprio corpo, mas o marido; e também o marido não tem senhor sobre o seu próprio corpo, mas a mulher”. Isso sugere que, no Reino de Deus, não há mais a prevalência entre papéis fixos de gênero. Homens e mulheres já  são tratados em pé de igualdade e compartilham as mesmas responsabilidades, restaurando assim o ideal edênico da cooperação.

Em Efésios 5:21, Paulo diz que “as mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor”. No entanto, ele também diz que “os maridos devem amar suas esposas como a si mesmos”. Isso sugere que, no Reino de Deus, o amor e o respeito são essenciais para a vida conjugal. Em Mateus 22:39, Jesus diz que “amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Isso significa que, no Reino de Deus, todos se amam uns aos outros como irmãos.

Em Gálatas 5:13, Paulo diz que “todos vós sois servos uns dos outros”. Isso sugere que, no Reino de Deus, todos são iguais e trabalham juntos para a promoção do bem comum, o que recupera o sentido original da política.

Eu quero dizer que nós podemos fazer uma política anárquica, ou seja, uma política sem chefes, sem líderes, sem governantes. Uma política que respeita a diversidade, a pluralidade e a criatividade. Uma política que promove a cooperação, a solidariedade e o apoio mútuo. Uma política que busca a liberdade, a igualdade e a justiça para todos.

Mas eu não quero apenas dizer isso. Eu quero também mostrar que essa política anárquica tem uma base bíblica e teológica. Eu quero mostrar que essa política anárquica é inspirada pelo projeto de Deus para a humanidade. Eu quero mostrar que essa política anárquica é uma forma de buscar o Reino de Deus na Terra.

Como assim? Bem, vamos pensar um pouco sobre como era o mundo antes da queda do pecado (Gn 1, 2). Como era o mundo no Éden, o paraíso original criado por Deus. Lá não havia restrições, controle ou leis. Lá não havia poder ou poderosos. Lá não havia mal ou sofrimento. Lá havia apenas amor livre e fraterno entre Deus, os seres humanos e toda a criação. Lá havia apenas liberdade, paz e felicidade.

Esse era o plano de Deus para nós. Esse era o nosso destino original. Mas nós nos desviamos dele por causa da nossa desobediência, da nossa rebeldia, da nossa ambição. Nós quisemos ser como Deus, conhecer o bem e o mal, dominar uns aos outros. Nós rompemos a comunhão com Deus, com os nossos semelhantes e com a natureza. Nós introduzimos o pecado, a morte e o sofrimento no mundo (Gn 3).

Mas Deus não desistiu de nós. Ele nos amou tanto que enviou seu Filho Jesus Cristo para nos salvar. Ele nos amou tanto que nos ofereceu uma nova chance de restaurar o paraíso perdido. Ele nos amou tanto que nos convidou a participar do seu Reino de justiça, amor e paz.

E como é esse Reino? É um Reino onde não há mais lágrimas, nem dor, nem morte (Ap 21:4). É um Reino onde não há mais maldição, nem noite (Ap 22:3-5). É um Reino onde não há mais templo, nem sol (Ap 21:22-23). É um Reino onde não há mais distinção entre judeus e gentios (Gl 3:28). É um Reino onde não há mais escravos nem livres (1Co 7:22). É um Reino onde não há mais segregação entre homens e mulheres (Gl 3:28).

Em outras palavras, é um Reino anárquico. Um Reino sem autoritarismo, sem hierarquia, sem discriminação. Um Reino onde todos são livres, iguais e irmãos. Um Reino onde todos se submetem a Deus e uns aos outros (Ef 5:21). Um Reino onde todos se amam como a si mesmos (Mt 22:39). Um Reino onde todos são servos uns dos outros (Gl 5:13).

Esse é o Reino que Jesus anunciou, inaugurou e nos ensinou a buscar. Esse é o Reino que nós, como seus seguidores, devemos testemunhar, manifestar e antecipar. Esse é o Reino que nós, como seus discípulos, devemos orar, esperar e trabalhar.

E como fazemos isso? Fazendo política. Mas não uma política qualquer. Uma política anárquica. Uma política que renuncia à violência, à opressão e à exploração. Uma política que abraça a não-violência, a libertação e a partilha. Uma política que se inspira no exemplo de Jesus, que foi o maior anarquista de todos os tempos.

Jesus foi um anarquista porque ele desafiou as autoridades religiosas e políticas de sua época. Ele denunciou os fariseus, os saduceus e os escribas por sua hipocrisia, sua injustiça e sua opressão (Mt 23). Ele confrontou os romanos, os herodianos e os zelotes por sua violência, sua dominação e sua exploração. Ele criticou o templo, o império e a lei por sua idolatria, sua tirania e sua alienação.

Jesus foi um anarquista porque ele propôs uma nova forma de viver em sociedade. Ele proclamou as bem-aventuranças (Mt 5:3-12), que são o contrário dos valores do mundo. Ele ensinou o mandamento do amor, que é o resumo da lei de Deus. Ele praticou a misericórdia, que é o critério do juízo final (Mt 23:23). Ele formou uma comunidade alternativa, que é a igreja do Reino (Ef 2, 3).

Jesus foi um anarquista porque ele se entregou voluntariamente à morte na cruz. Ele não resistiu ao mal com o mal, mas com o bem. Ele não revidou aos seus inimigos, mas os perdoou. Ele não buscou o poder, mas o serviço. Ele não se exaltou, mas se humilhou. Ele não se salvou, mas nos salvou (Fp 2:8).

Jesus foi um anarquista porque ele ressuscitou dos mortos e venceu o pecado, a morte e o diabo. Ele inaugurou uma nova criação, uma nova humanidade e uma nova história. Ele enviou o Espírito Santo, que nos capacita a viver como filhos de Deus e cidadãos do Reino. Ele prometeu voltar para consumar seu plano de restauração de todas as coisas (Ef 1:10).

Portanto, se queremos seguir a Jesus, se queremos buscar o Reino de Deus, se queremos restaurar o paraíso perdido, nós devemos fazer esse tipo de política anárquica. Nós devemos nos opor às estruturas de pecado e morte que dominam o mundo (Ef 6:12). Nós devemos construir relações de graça e vida que refletem o céu. Nós devemos ser sal da terra e luz do mundo.

Eu sei que muitos podem achar essa proposta utópica, irrealista ou até mesmo perigosa (Jo 19:6). Afinal, como fazer uma política anárquica em um mundo caído? Como conciliar a nossa fé com a nossa ação? Como ser fiéis à Palavra de Deus e ao Espírito de Deus?

Eu entendo essas preocupações, mas eu também acredito que elas são fruto de uma visão limitada e condicionada pela nossa história e pela nossa cultura. Nós fomos ensinados a separar o sagrado do profano, o espiritual do material, o individual do coletivo. Nós fomos doutrinados a aceitar a dualidade, a passividade e a conformidade.

Mas eu quero desafiar essas crenças e propor uma nova forma de fazer micro-história política no cotidiano. Uma forma baseada na unidade, na atividade e na transformação. Uma forma que reconhece que Deus está em tudo e em todos. Uma forma que reconhece que somos chamados a ser co-criadores com Deus. Uma forma que reconhece a possibilidade de implantação do Reino de Deus desde já, aqui e agora (1 Co 4:20).

Exemplos práticos

Existem alguns exemplos reais de sociedades anárquicas ou semi-anarquistas que existiram ao longo da história. Um exemplo é a comuna de Paris, que foi criada em 1871, após a derrota da França na Guerra Franco-Prussiana. A comuna de Paris foi um governo revolucionário que durou apenas dois meses, mas que implementou uma série de medidas progressistas, incluindo a igualdade de direitos para homens e mulheres, a abolição da propriedade privada e a participação popular na tomada de decisões.

Outro exemplo é a cidade-estado de Rojava, localizada no nordeste da Síria. Rojava é uma região autogovernada que foi criada em 2012, durante a Guerra Civil Síria. Rojava é baseada nos princípios do confederalismo democrático, uma forma de governo anarquista que promove a autonomia local e a participação popular.

Um exemplo mais recente é o dos kibutz israelenses. Os kibutz são comunidades agrícolas coletivas que foram fundadas no início do século 20 por judeus que buscavam criar uma sociedade baseada na cooperação e na igualdade. Os kibutz são autogovernados e as decisões são tomadas por consenso. Os bens e serviços são compartilhados e não há classes sociais.

Abordagens críticas

A ideia de uma utopia anárquica é frequentemente criticada por ser irreal e inviável. Seus críticos argumentam que, sem um governo, a sociedade seria caótica e violenta. Eles também argumentam que a igualdade de todos é impossível de alcançar, pois as pessoas são naturalmente diferentes.

No entanto, os defensores da anarquia argumentam que a utopia anárquica é possível, desde que as pessoas estejam dispostas a trabalhar juntas e a construir uma sociedade baseada na cooperação, na solidariedade e na justiça.

No caso dos kibutz israelenses, por exemplo, é possível destacar as seguintes características:

  • Autogoverno: as decisões são tomadas por consenso, sem a intervenção de um governo central.
  • Compartilhamento de bens e serviços: os membros do kibutz trabalham juntos para produzir os bens e serviços necessários para a comunidade.
  • Igualdade: todos os membros do kibutz têm os mesmos direitos e oportunidades.

Essas características podem ser apresentadas como exemplos de uma sociedade organizada de forma a promover a liberdade, a igualdade e a justiça, sem fazer referência a qualquer ideologia específica.

É importante ressaltar que a utopia anárquica é um ideal que pode ser difícil de alcançar na prática. No entanto, os exemplos práticos mencionados neste texto mostram que é possível criar sociedades que se aproximam desse ideal, mesmo que não sejam perfeitas.

Utopia anárquica e desagregação comunitária

Em uma utopia anárquica, não há governo, nem leis, nem polícia. Todos são livres para viver como quiserem, sem medo de punição. Não há classes sociais, nem ricos nem pobres. Todos têm os mesmos direitos e oportunidades.

No entanto, a perda do ideal comunitário é um fenômeno complexo, que pode ser explicado por uma série de fatores, incluindo:

  • O crescimento da população: à medida que a população cresce, torna-se mais difícil manter um senso de comunidade. As pessoas se tornam mais anônimas e menos próximas umas das outras.
  • A urbanização: a urbanização também contribui para a perda do ideal comunitário. As cidades são lugares grandes e movimentados, onde as pessoas vivem em close quarters, mas muitas vezes não se conhecem.
  • A globalização: a globalização também tem um impacto na perda do ideal comunitário. As pessoas estão cada vez mais conectadas com pessoas de todo o mundo, mas isso pode levar a um afastamento de suas comunidades locais.
  • As mudanças sociais e econômicas: as mudanças sociais e econômicas também podem contribuir para a perda do ideal comunitário. Por exemplo, o aumento do desemprego e da pobreza pode levar as pessoas a se concentrarem em suas próprias necessidades, em detrimento das necessidades da comunidade.

O isolamento social decorrente da pandemia agravou esse diagnóstico de desagregação comunitária, pois forçou as pessoas a ficarem isoladas umas das outras, dificultando o contato e a interação social. Isso levou a um aumento da sensação de isolamento e solidão, que pode ter um impacto negativo na saúde mental e emocional das pessoas.

O recrudescimento do terrorismo é um problema complexo que não pode ser resolvido apenas com medidas de segurança e militares. É necessário também abordar as causas do terrorismo, que incluem a pobreza, a desigualdade, a intolerância e a falta de oportunidades.

As posturas pacifistas podem contribuir para combater o terror de várias maneiras, incluindo:

  • Promovendo a compreensão e a tolerância: o terrorismo é muitas vezes motivado pelo medo e pela intolerância. A promoção da compreensão e da tolerância entre pessoas de diferentes culturas e religiões pode ajudar a reduzir o risco de terrorismo.
  • Abordando as causas do terrorismo: as posturas pacifistas podem ajudar a abordar as causas do terrorismo, como a pobreza, a desigualdade e a falta de oportunidades.
  • Construindo pontes entre comunidades: as posturas pacifistas podem ajudar a construir pontes entre comunidades que são frequentemente divididas por conflitos. Isso pode ajudar a criar um ambiente mais pacífico e menos propício ao terrorismo.

É claro que as posturas pacifistas não são uma solução mágica para o terrorismo. No entanto, elas podem desempenhar um papel importante na prevenção e no combate ao terrorismo.

Considerações finais

A utopia anárquica é um ideal que pode ser difícil de alcançar na prática. No entanto, a experiência da igreja primitiva mostra que é possível criar sociedades que se aproximam desse ideal, mesmo que não sejam perfeitas.

A desagregação comunitária é um fenômeno que tem um impacto negativo na sociedade. Sem um senso de comunidade, as pessoas são mais propensas a se sentirem isoladas e desconectadas. Isso pode levar a problemas sociais, como a criminalidade, a violência e a pobreza.

O recrudescimento do terrorismo é um problema sério que ameaça a paz e a segurança mundiais. As posturas pacifistas podem contribuir para combater o terror, mas é necessário também abordar as causas do terrorismo.

A recuperação do ideal comunitário e o combate ao terrorismo são desafios complexos, mas são desafios que vale a pena enfrentar. Um mundo com mais comunidades fortes e coesas é um mundo mais justo, pacífico e próspero.

Bibliografia

  • Bíblia Sagrada
  • A Comuna de Paris: 1871, de Peter Kropotkin
  • Confederalismo democrático: um novo caminho para a liberdade e a justiça, de Murray Bookchin
  • Kibutz: a utopia socialista em Israel, de Amos Elon (1981)

Adauto C. Santos, teólogo, professor de EBD e redator deste blog (Powered by Google Bard e MS Bing)

1 Comentário

  1. Ótimo post, parabéns! Gostaria de contribuir de alguma forma com uma perspectiva que tive sobre esse assunto.

    O escritor e teólogo Leonardo Boff, afirmou que “O Jardim do Éden é uma maquete do céu”, e isso é verdade, Deus preparou ali algo maravilhoso que a humanidade iria gozar, em uma menor escala de proporção, a glória reservada do perfeito Reino de Deus. Mas, a Queda tirou essa possibilidade de experimentar essa maquete, e agora vivemos no julgo das mais diversas políticas existentes no mundo.

    Mas, aprouve ao Senhor enviar Jesus com a mensagem do evangelho do seu Reino e quebrar os paradigmas sociais daquela época que reverberam até os dias de hoje. Sabemos que o Reino de Deus está presente agora, mas ainda não em sua forma consumada, é o que denominamos do “já e ainda não”. Entretanto, a forma política que Jesus trouxe esse Reino demonstrava que Ele olhava as coisas do mundo numa ordem divina, apontando e exigindo uma transformação urgente: o mundo precisa ser restaurado segundo o conceito de um novo sistema, do sistema divino. Aqui está o que esse blog chama atenção, a anarquia bíblica e que deve ser praticada por aqueles que são filhos de Deus remidos pelo sangue de Cristo.

    O grande desafio está em desenvolver esta anarquia de forma correta e bíblica, observando que no Reino de Deus todos são iguais e que devem desenvolver o amor uns para com os outros. Aqui coloco também que esse Reino, além de quebrar paradigmas, leva as pessoas a viverem de forma paradoxal, em pelo menos três aspectos: sendo escravos, mas livres; buscando ser o menor, para ser o maior; e não tendo nada e ao mesmo tempo tendo tudo, que é cristo. Essa é a anarquia a ser desenvolvida de forma prática.

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