POR QUE OS JOVENS DEVERIAM CONTINUAR DE ONDE PARAMOS?

 Introdução

Sabemos que há diversos paradigmas, que nos trouxeram como civilização, onde nos encontramos hoje: Família, acordos sociais, culturais, estado e religião. No entanto, sabemos também, que o meio de enxergarmos esses paradigmas pode variar de tempos em tempos, civilizações e civilizações.

Existe uma convenção social (e alguns diriam: moral, também) de que independente das circunstâncias e avanços que houverem, é necessário que as gerações que se sucedem, continuem com esses paradigmas (ao menos sua essência fundamental), a fim de que a humanidade tenha a sua permanência garantida na terra. Sem prole não há continuidade de espécie, sem leis, estatutos e o estado, tudo se torna caótico e voltamos à savana, onde o que impera é a lei dos mais fortes, sem cultura não há o que se preservar em caráter identitário, a religião, por sua vez, tem sido a condutora moral de diversas civilizações.

Compreendemos que, cada um desses paradigmas, conta com aspectos tanto vantajosos, quanto nocivos a nós, nenhum é perfeito em si, mas pode ser aperfeiçoado. Isso requer um esforço coletivo de perceber as nuances daquilo que está funcionando e atendendo às expectativas e aquilo que já está em defasagem. No entanto, percebemos um grande descrédito, que esses paradigmas têm recebido durante os últimos anos. Muitos deles foram esticados, mutilados para que se amoldasse à maneira de cada um. Depois desses abusos sofridos muitas dessas tradições foram abandonadas, quase mortas à beira da estrada.

Um legado indesejado

Os jovens de hoje, em sua maioria, não se interessam por questões como família, alguns nem sequer desejam casar-se e dentre aqueles que se casam, poucos são os que planejam ter filhos, substituindo estes por: um cão, gato, porco-da-índia ou qualquer outro animal que não precise de tantos cuidados, nem costumam viver por muito tempo. Questões como: escola, alimentação, medicamentos, roupas e atenção são diminuídas a quase zero com a opção por um animal de estimação. 

Tratando da religião, que foi concebida como uma forma de a humanidade se conectar, com algo que transcende o natural, confortar-lhe a mente, além de estabelecer questões morais de ordem civilizatória, tais como: honrar seus pais, respeito ao próximo, ajudar os necessitados, esta acabou se tornando: comércio, exploração, deturpação da fé alheia e até oportunidade para pessoas psicóticas praticarem atrocidades terríveis, concebidas por suas mentes maníacas. 

O estado foi corrompido pela ganância daqueles que decidem fazer de uma responsabilidade diplomática, organização e governo, uma carreira lucrativa, de enriquecimento ilícito, com o recurso popular. Com isso, uma questão extremamente complexa levantou-se novamente: Por que as próximas gerações deveriam colocar sobre os seus ombros, a responsabilidade de manter esses paradigmas, que já se provaram tão frágeis de deturpações e de pouco lucro? Que vantagem um jovem hoje encontraria em continuar uma tradição que veio antes deste, de caráter coletivo? Ou seja, individualmente ele não encontrará quaisquer vantagens em grande parte destas. 

Antigamente, pensava-se em cada uma destas tradições como coisas extremamente úteis, porém hoje, como dizem os filósofos, filhos são um investimento de pouco retorno, você gasta e se gasta para cuidar, para no fim ouvir coisas como: “te odeio!”. Então para que casamos, temos filhos, concordamos com leis promulgadas e acordos sociais? Para o nosso ego e vantagem? Todas essas coisas são questões coletivas e de moral.

Filhos e família

Ter filhos, já foi uma questão de ter mão-de-obra para ajudar em casa, já que apenas recentemente os indivíduos foram classificados por períodos e as crianças foram beneficiadas pelo direito da infância: de não trabalhar, de poder priorizar os estudos e de ser considerado incapaz, cabendo, portanto, aos pais seu cuidado. Por isso, antes de a tal infância ser reconhecida, era algo extremamente necessário se ter vários rebentos. 

A questão da alta mortalidade infantil, a ausência de planejamento familiar (considerando o número de filhos por renda fixa), dentre outras colaboraram para que as famílias tivessem muitos filhos, ocasionando os benefícios e consequências advindos disso. A religião e a cultura influenciaram bastante nesse processo, onde havia uma convenção social pré-estabelecida, de que o “ciclo da vida” era: nascer, amadurecer, casar-se, ter filhos, envelhecer e morrer. 

Outro fator que merece destaque aqui, estando diretamente ligado ao grande número de filhos que se tinha antigamente, se dava ao fato de que as mulheres não tinham muito ou nenhum acesso ao mercado de trabalho, ficando grande parte do tempo em casa, ficando ao seu encargo, cuidar dos filhos e educá-los, assim como os afazeres domésticos. 

Com a chegada da modernidade, as guerras, as sufragistas  e outros eventos se transformaram em alguns paradigmas, as mulheres foram ganhando seu lugar no mercado de trabalho e na sociedade em geral, com mais espaços sociais para interagir com outras pessoas, estando assim mais tempo fora de casa. Isso afetou o quantitativo de filhos por casal, assim como popularizou, entre as pessoas com mais poderes aquisitivos, a figura da babá, governanta ou cuidadora. 

Percebemos então, com isso, uma significativa diminuição no número de filhos, que em média, no início do século XX eram oito por casal, ao fim deste, passou para três. Com os avanços e possibilidades atuais de interação, tecnologia, informações e afins, os casais cada dia têm menos filhos e vários já vivem num contexto em que filhos não são, sequer cogitados, ou seja uma nova modalidade (não tão nova, eu sei) de família, com um animal de estimação (cão, gato, porquinho-da-índia, calopsita etc). Por quê? Porque filho requer atenção, cuidado, educação, coisa que um animal, vive tranquilamente com o mínimo: 

  • Atenção: basta brincar um pouco com o seu cão no fim do dia.
  • Cuidados médicos: o veterinário não precisa ser consultado com tanta frequência.
  • Educação: existem treinadores que trabalham por alguns meses e seu animal aprenderá a fazer suas necessidades no lugar correto e pegará a bolinha na hora da brincadeira, ou ainda há a opção de você mesmo ensiná-lo em casa.

Os casais compram roupinhas, tiram fotos, postam no Instagram e vivem suas vidas felizes. 

Estado e acordos sociais 

Se tratando de governo e sua influência na vida das pessoas, há muito se discute a respeito. Encontramos na Grécia, em Platão, a tal democracia que segundo Sir Winston Churchill, dos piores é a melhor. Porém eu acrescentaria (sim, no alto da minha arrogância, ouso acrescentar Churchill), que é o regime de governo que mais gera discussões, conflitos e polêmicas. 

Em regimes totalitários e opressores (não que o democrático esteja isento disso), as pessoas discordam, mas o fazem em voz baixa, discutem, mas o fazem debaixo de muita pressão e censura, ou seja, a democracia é um dos poucos regimes onde o conflito é legítimo e até faz parte do processo político: sem conflitos, embates de ideias e ideologias, não se faz democracia, pois esta última é uma construção dos anteriores. 

O fenômeno que encontramos hoje, em relação aos governos ocidentais, seria a descrença total, ou a alienação ideológica, onde torcedores de futebol confundem-se com militantes partidários. Claro que, isto pode definir, mas ao mesmo tempo simplifica bastante uma construção de anos, num país como o Brasil, em que, segundo o professor Mário Sérgio Cortella, migrou de um estado de apatia ou anestesiamento com relação à política, onde sabia-se mais sobre os convocados para a copa do mundo, para um lugar em que um cidadão comum conversa acerca de decisões do supremo tribunal, acerca de alguma questão em alta na política. 

No entanto, com o alto engajamento e envolvimento da população em questões políticas e discussões ideológicas-partidárias, surgiram as afamadas militâncias, que em suma, deveriam propor através de ações práticas e inteligentes a adesão de ideias que trariam benefícios às pessoas menos assistidas e a sociedade em geral. O que percebemos, no entanto, é uma desconstrução do termo assim como um esgotamento de ideias e pensamentos que são simplificados e reduzidos a meras discussões sem sentido ou fundamento intelectual. 

Conclusão 

Não espero que um cidadão comum, sem grande envolvimento acadêmico tenha grande acervo intelectual acerca das ideias em que o partido do qual ele está filiado tem, mas que ao menos haja uma compreensão acerca do que é defendido. Algo que vá além do: eles são pessoas ruins e nós, boas, por que sim. 

Percebe o paradoxo, nisso tudo? Não se falava e discutia política, isso era algo ruim, passamos a falar e discutir política, isso é algo vantajoso, a discussão é baseada em achismos sem fundamentos, além do velho: “nós contra eles”, isso é pior do que o primeiro estado. Maquiavel tem a sua frase icônica, não à toa: dividir para conquistar, a melhor forma de dominação de massa ainda é essa, com certeza. 

Algumas pessoas, culpam os males que existem atualmente relacionados a insensibilidade e a falta de amor, às tradições e àquilo que chamamos de moralidade cristã. Diante dessa atribuição de culpa, eu questiono: o que, de fato trouxe os males, foram as tradições e a moralidade, ou a deturpação e interpretação equivocadas destas? O portador de uma doença deve ser tratado como se, este primeiro, fosse o causador dos males, ou ele é apenas mais uma vítima da doença? 

Wesley Santos. Professor e Pesquisador na área de Educação. Diuretor Geral no Colégio Batista de Palmas. 

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