O que é citerioridade? 

É a capacidade de agir sobre o mundo, de transformá-lo conforme nossos desejos e projetos. É a expressão da nossa vontade, da nossa criatividade, da nossa liberdade. Citerioridade é o oposto de exterioridade, que é a condição de ser afetado pelo mundo, de recebê-lo passivamente, de se adaptar a ele. Citerioridade é o que nos faz sujeitos, enquanto exterioridade nos faz objetos.

O que é contemplação? 

É a atitude de observar o mundo com atenção, de apreciá-lo em sua beleza e complexidade, de reconhecê-lo em sua alteridade. É a expressão da nossa sensibilidade, da nossa curiosidade, da nossa abertura. Contemplação é o oposto de manipulação, que é a atitude de usar o mundo como meio para nossos fins, de reduzi-lo à nossa medida, de dominá-lo. Contemplação é o que nos faz sábios, enquanto manipulação nos faz tolos.

Citerioridade e contemplação são duas dimensões fundamentais da existência humana. Ambas são necessárias e complementares. Sem citerioridade, não podemos realizar nossos potenciais, nem contribuir para o bem comum. Sem contemplação, não podemos apreciar o valor do mundo, nem respeitar a sua diversidade. Citerioridade sem contemplação leva à arrogância, à violência, à alienação. Contemplação sem citerioridade leva à passividade, à indiferença, à resignação.

Como equilibrar citerioridade e contemplação na nossa vida? 

Não há uma resposta única ou definitiva para essa questão. Cada pessoa deve encontrar o seu próprio caminho, de acordo com as suas circunstâncias e aspirações. Mas há algumas orientações gerais que podem nos ajudar nessa busca:

  • Cultivar a autoconsciência: conhecer nossos limites e possibilidades, nossas motivações e valores, nossas emoções e pensamentos. A autoconsciência nos permite agir com coerência e responsabilidade, bem como refletir sobre as consequências dos nossos atos.
  • Cultivar a alteridade: reconhecer o outro como um ser diferente e igual a nós, com seus direitos e deveres, suas necessidades e desejos, suas opiniões e sentimentos. A alteridade nos permite dialogar com respeito e empatia, bem como aprender com as diferenças.
  • Cultivar a transcendência: perceber o sentido e o valor da vida além das aparências e das convenções, das utilidades e das vantagens, das urgências e das novidades. A transcendência nos permite contemplar o mistério e a beleza do mundo, bem como participar da sua harmonia.

Citerioridade e contemplação são duas formas de amar: amar a si mesmo e ao mundo, amar o que somos e o que podemos ser, amar o que é e o que pode ser. Citerioridade e contemplação são duas formas de viver: viver com intensidade e com profundidade, viver com paixão e com sabedoria, viver com arte e com ciência.

“Pedro e os seus companheiros estavam dominados pelo sono; acordando subitamente, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. Quando estes iam se retirando, Pedro disse a Jesus: ‘Mestre, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias’. (Ele não sabia o que estava dizendo.) Enquanto ele estava falando, uma nuvem apareceu e os envolveu, e eles ficaram com medo ao entrarem na nuvem. Dela saiu uma voz que dizia: ‘Este é o meu Filho, o Escolhido[a]; ouçam-no!’ Tendo-se ouvido a voz, Jesus ficou só. Os discípulos guardaram isto somente para si; naqueles dias, não contaram a ninguém o que tinham visto.” (Lucas 9:33,34 NVI-PT)

Na passagem bíblica acima transcrita temos duas posturas que ilustram bem os conceitos em apreciação neste texto: citerioridade versus contemplação. A postura de Pedro, expressa na sugestão de construção de tendas para a perpetuação do êxtase experimentado na contemplação da glória da transfiguração, contraposta à postura de Cristo, expressa na voz ouvida entre nuvens e no comportamento seguinte de descer do monte para atender as demandas da multidão no vale.

Muitas comunidades eclesiásticas contemporâneas vêm adotando liturgias que assumem a sugestão meramente contemplativa de Pedro, por meio da adoção de rituais de catarse coletiva que mantenham a plateia em um crescente estado de êxtase durante seus cultos, eximindo-se da obediência à voz divina e evitando comprometer-se com as demandas das multidões sem pastor nos vales da vida. No entanto, a própria raiz etimológica da palavra liturgia implica ação concreta em favor do povo necessitado, aflito, desesperado, faminto e sedento de salvação do estado precário em que se encontra.

Em sua origem, a palavra liturgia significava “obra do povo” e era usada para se referir a qualquer ato em que o povo reconhecia os méritos de um cidadão exemplar. Com o tempo, ela adquiriu seu significado atual, ou seja, os atos cerimoniais que fazem parte de uma instituição religiosa ou civil.

Como é a liturgia dos cultos da sua congregação? O que se pode fazer a esse respeito para nos aproximar do padrão de comportamento de Cristo? Em sua opinião, qual dessas tendências deveria prevalecer na liturgia dos cultos cristãos? Quais são as suas sugestões?

Fontes e referências pesquisadas no MS Bing:

  • Boff, L. (2001). Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes.
  • Fromm, E. (1983). A arte de amar. Rio de Janeiro: Zahar.
  • Morin, E. (2003). O método 6: ética. Porto Alegre: Sulina.
  • Nussbaum, M. (2015). A fragilidade da bondade: fortuna e ética na tragédia e na filosofia grega. São Paulo: WMF Martins Fontes.
  •  Ricoeur, P. (1991). O si-mesmo como um outro. Campinas: Papirus.
Por: Adauto Santos, teólogo e professor.

1 Comentário

  1. Muito obrigado por me fazer compreender esse assunto de Citerioridade e Contemplação. Sempre tem alguém por perto que tem essas duas personalizadas ou uma. Agora saberei da o nome certo do que elas tem.

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